Pai constrói o “País das Maravilhas” para a filha

Atrações do parque aquático também foram adaptadas.
Tudo começou no ano de 2005. O empresário do setor imobiliário Gordon Hartman viajou de férias com a esposa, Maggie, e a filha Morgan, então, com 12 anos de idade. Morgan tinha o desenvolvimento cognitivo semelhante a uma criança de 5 anos e ainda uma forma de autismo. Gordon conta que viu a filha ir brincar com outras crianças na piscina do hotel onde estavam hospedados e ser rejeitada por elas. “Morgan é uma menina adorável. Quando conhece alguém, sempre sorri e oferece um abraço. Mas, houve tantas ocasiões em que não pudemos levá-la aos lugares”, explica o pai. Arrasados pelo que a filha sofria, Gordon e Maggie procuraram outros pais em busca de um lugar acessível para a pequena brincar sem ser desrespeitada ou olhada com desprezo. Contudo, “percebemos que não havia um local tão inclusivo (quanto queríamos)”, afirma Gordon. Foi o ponto de virada na vida de sua família.
O ano agora é 2007. Gordon decidiu vender sua empresa por 51 milhões de dólares e criar a Fundação Familiar Gordon Hartman, ONG voltada a pessoas com deficiências. O objetivo principal era construir o primeiro parque temático do mundo totalmente inclusivo e ultra acessível. “Queríamos um parque onde todos pudessem fazer tudo; onde pessoas com e sem necessidades especiais pudessem brincar”, explicou. Com a consultoria de médicos, terapeutas, pais e pessoas com e sem deficiência, ele comandou a construção no local onde funcionava uma antiga pedreira, na cidade de San Antonio, Texas (EUA). Em 3 de março de 2010, foi inaugurado o Morgan’s Wonderland (O País das Maravilhas de Morgan, em tradução livre), uma iniciativa que custou em torno de 34 milhões de dólares (algo em torno de R$ 174 milhões, em cotação atual).
O parque ocupa uma área de 25 acres, o que equivalente a 101 mil metros quadrados e oferece 25 atrações adaptadas onde crianças e adultos, com ou sem deficiência, podem brincar juntos, eliminando barreiras físicas e econômicas. Entre as atrações, estão uma roda gigante acessível, um playground “de aventuras” e um minitrem. Segundo Gordon, muitos dos visitantes dizem que é a primeira vez que conseguem ir a brinquedos do tipo. O carrossel do parque tem carruagens especialmente projetadas para acoplar cadeiras de rodas, que sobem e descem junto com os assentos ilustrados com animais. O curioso é que, a princípio, a própria Morgan não gostou muito da atração. “Ela estava com muito medo de ir no carrossel. Ela não entendia por que (o brinquedo) girava e por que os animais subiam e desciam”, explicou o pai.
Morgan precisou de três anos para criar coragem de entrar no carrossel. “No começo, ela ficava ao lado; depois, subia em algum animal, mas sem que ligássemos (o motor). Foi um processo lento, mas hoje ela adora (o brinquedo). Superar algo de que ela tinha medo significou muito. Pequenas conquistas durante brincadeiras fazem uma grande diferença”, afirmou. Desde a inauguração, o parque recebeu 1 milhão de visitantes de 67 países. A entrada é gratuita para pessoas com deficiência e um terço dos funcionários do local tem algum tipo de necessidade especial. “Percebi como Morgan tem sorte, por ter tantas coisas. Não queria que o dinheiro fosse uma barreira para outras pessoas (com deficiência)”, explicou o pai. “Abrimos as portas todos os anos sabendo que vamos ter prejuízo de mais de US$ 1 milhão e que precisamos recuperar esse dinheiro com campanhas de arrecadação e com parceiros”, disse ele.

A água morna de partes do parque aquático é benéfica para quem tem problemas musculares.
Em 2017, o parque foi expandido com a ala Morgan’s Inspiration Island (ilha de inspiração de Morgan, em tradução livre), um parque aquático acessível que custou US$ 17 milhões (R$ 87 milhões, em cotação atual). “Havia poucos visitantes em julho (verão no hemisfério Norte) porque as cadeiras de roda causam muito calor. Então, decidimos abrir um parque aquático”, contou Gordon Hartman. Partes da “ilha” têm água morna, que favorece os visitantes com problemas musculares. Há também cadeiras de rodas motorizadas e à prova d’água, além de um passeio de barco acessível. Hartman conta que foi abordado por um homem dentro do parque aquático. “Ele segurou a minha mão, apontou para seu filho, com agudas necessidades especiais, e começou a chorar. Disse que o filho nunca tinha conseguido brincar com água antes”, lembrou. Considerando que três entre quatro visitantes do parque não têm deficiências, Hartman diz ter conquistado seu objetivo: “ajudar as pessoas a perceber que, apesar de sermos diferentes em algumas maneiras, na verdade somos todos iguais. Vi uma garota em cadeira de todas com outra sem necessidades especais, e elas brincavam juntas. Foi muito legal”.
Gordon Hartman recebe pedidos para a construção de mais parques semelhantes, mas não tem planos de fazê-lo. Seu foco agora é prover instalações educativas adaptadas para adolescentes com deficiência em San Antonio. “Sei que há diferentes organizações atualmente tentando construir algo parecido ao Morgan’s Wonderland em outros lugares e continuaremos a trabalhar com eles”, disse. E Morgan continua a frequentar o parque, onde se tornou uma espécie de celebridade. “Todos querem falar com ela, tirar fotos, e ela se sai muito bem”, orgulha-se o pai.
* Matéria contou com dados fornecidos pela IA do Google e por texto da BBC Brasil


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